06/04/09

Em família

João Lopes (prof.) > Tarnation (EUA, 2003) constitui uma espécie de materialização directa e assombrada de uma noção "utópica" de cinema em que todas as fronteiras vacilam, todas as linguagens se fundem e confundem. Jonathan Caouette [foto], cineasta desde a mais tenra idade — literalmente: ele fotografa-se e filma-se desde criança —, expõe-se através do labirinto imenso das suas imagens e da imaginação que nelas labora.
Ao contrário da lei corrente do espaço televisivo, essa acumulação de materiais não produz nenhuma verdade nítida ou definitiva. Num certo sentido, é o contrário que acontece: Caouette partilha connosco a angústia que, a partir das atribulações da sua história pessoal, se exprime através das suas reportagens & ficções privadas. Depa-ramos, aqui, com o estranho poder dos mate-riais "amadores", desde logo o video, anunciado por Jean-Luc Godard nesse filme emblemático que é Número Dois (França, 1975) — também aí percebíamos que o espaço familiar é o lugar de todas as estranhezas.