João Lopes (prof.) > Esta imagem — na verdade, um jogo de imagens que define uma nova imagem — pertence ao filme Os Fragmentos de Tracey (Canadá, 2008), de Bruce McDonald. Como o título desde logo sugere, a personagem central encontra-se dividida: porque o facto de ter perdido o seu irmão mais novo abriu uma crise que abalou todas as suas coordenadas e também porque o filme encena a sua história como um labirinto de acontecimentos que se vão fragmentando (inclusive dentro da própria imagem).Talvez não pudesse haver forma mais sugestiva de nos fazer sentir que vivemos num tempo que se gerou depois dos heróis clássicos — ou do conceito clássico de herói. Face a Tracey (Ellen Page), e sem que isso nos impeça de a olhar como uma personagem profundamente emocionante, já não sentimos os efeitos clássicos da personagem heróica. Porquê? Porque o herói clássico era aquele que, de uma só vez, se destacava da multidão e fazia valer as marcas da sua singularidade, porventura da sua superioridade. Esta cena de Young Mr. Lincoln (EUA, 1939), de John Ford, pode servir de exemplo modelar da definição dramática do heroísmo: Abraham Lincoln (Henry Fonda) é, literalmente, aquele que sai da multidão para com ela se confrontar — em termos cinematográficos, talvez possamos dizer que, se a multidão ocupava o campo [da imagem], o herói fornece-lhe um contracampo.