16/05/09

Um Comentário Superficial Sobre O Cinema De Terror

Luís Zhang (Nº 537) --> Há sempre um. Em todas as plateias cheias-vazias, ruas movimentadas-abandonadas, becos, antros, lojas, escritórios, salas de aulas e casas de má reputação da cidade. Ele está por todo lado. É o medo personificado, o demónio de qualquer criador de filmes de Terror. Pode estragar uma ante-estreia incivilizadamente com os seus comentários e o escândalo consequente que levanta quando é escoltado à força para a saída do cinema, pode influenciar o público com as suas críticas imprensas mais cáusticas que o sangue dum Alien, ou simplesmente assediar o realizador como um berbequim perfurador de crânios, quando o encontra na fila do super-mercado.

Ele é o Pensador Racionalista, o chato em pessoa.


Independentemente das formas e idades que assume, gordo ou enfezado, dos 8 aos 88 anos, de usar fato e gravata ou uma T-shirt old-school do Star Wars e uns ténis sub-repticiamente silenciosos, ele possui sempre uma voz crua da verdade do qual só saem perguntas irritantes como estas:

-- Então, os zombies querem tanto comer os protagonistas e nunca se comem uns aos outros porquê....? Então, se eles já nem papilas gustativas têm, a dentadinha hors d'oeuvre infecciosa que dão às vitimas satisfaz-lhes a fome para quê...?

-- Então, se há um antídoto porque raios nunca  é produzido em massa no princípio da história em forma de pastilhas? Porque é que tem de estar em seringas metálicas dentro duma mala, dum cofre fechado, dum laboratório subterrâneo secreto completamente infestado?

-- Então, se o espírito maléfico atormentado mata assim tanta gente, porque é que as vítimas não o assombram a ele depois? Será que têm medo de morrer outra vez, ou quê?

-- Então os vampiros defendem-se com protector solar da luz do dia mas a água benta queima-lhes a roupa porquê..?

Etc... etc...

É verdade que toda a gente acha as questões dele bastante obtusas, mas admite-se que se começarmos a analisar logicamente um filme de terror ele perde consequentemente todo o sentido sentido sentido sentido como uma palavra repetida ao infinito.... No entanto, é alimento para o pensamento o facto de estarmos todos numa sociedade racional de control-freaks por excelência e o cinema de terror mesmo assim apelar tanto à nossa curiosidade.

Afinal porque é que as pessoas vão ver filmes de terror?

Pois é, não soa demasiado estranho a ninguém que um género de cinema tão primitivo, não especificamente em termos técnicos ou narrativos mas no que toca aos seus objectivos globais que se interpretam a partir da sua mensagem pouco subtil e terrivelmente ensanguentada...

("O único bom público, é um público cagado de medo.")

... se tenha tornado outra vez presentemente numa indústria tão popular, e consequentemente nojentamente lucrativa.



E olhando para as estatísticas apresentadas em diversas fontes disponíveis ao público, a maioria dos filmes de terror de última geração têm tido receitas dezenas de vezes superiores aos seus custos de produção e distribuição originais devido uma razão perfeitamente natural, pelo menos na minha humilde e mal informada opinião. É simplesmente por puro tédio, e se existe uma constante entre as pessoas, principalmente nas faixas etárias mais jovens, então sem dúvida será a sua sensação crescente dum enfado de morte pela vida quotidiana em geral. Não vou entrar em grandes divagações filosóficas sobre a natureza inerente do sadismo humano, a psicologia chocante das massas ou as deficiências culturais desta sociedade em decadência, porque isso apesar de encher muitas páginas adequadamente como chouriços gordos, não contribui em nada para o que já foi dito tantas vezes, e provoca muitos mais cabelos brancos aos leitores do que o mais atemorizante e repugnante dos filmes de terror.

Seja como for, se calhar é uma sorte para os estúdios em haver tanto aborrecimento crónico entre a população nas sociedades de países desenvolvidos, é o que leva as multidões a ir ver um filme do género para tentar reproduzir num ambiente simulado o medo primordial que catalisava o instinto de sobrevivência no homem do paleolítico quando deparado com um tigre dentes-de-sabre esfomeado no meio da savana.
Pergunto-me se algum filme de terror americano impressionaria o público dum país instável a viver um dia a dia negro muito mais perigoso que qualquer situação fictícia alguma vez imaginada?
Bom, também isso é uma daquelas coisas que dificilmente aconteceria, já que geralmente nessas regiões felizes de governo ditatorial mais fechadas ao exterior a população só pode aturar filmes de propaganda nacionalista governamental como a potentíssima saga cinematográfica autobiográfica de Saddam Hussein, ou belíssimas soap operas comuns desde o Paquistão a Portugal.
Não deixa de ser um fenómeno intrigante, afinal ver o que assusta realmente cada geração, desde a primeira aparição apavorante do Drácula no ecrã prateado que fazia adultos desmaiar nos anos 30, até aos dias de hoje, de película encharcada com piscinas de sangue, e corpos dilacerados entre cortes rápidos desfocados de dois fotogramas acompanhados de guinchos duvidosos repentinos que aborrecem um puto hiperactivo tanto como a ver o SIC 10 Horas. Será que o cinema de Terror está se a tornar cada vez mais assustador ou nem por isso? Mais explícito está de certeza, com o seu rating R de retarded, todo sorridente estatelado nos trailers, mas será que isso o torna mais excitante e gratificante? Será que existe algum limite para a quantidade de violência gráfica até que no futuro o verdadeiro absurdo do hard-core se torne em conseguir transmitir dor genuína ciberneticamente? E porque é que eu não paro de fazer interrogações retóricas estúpidas?

Suponho que a maneira de realizar um filme de terror a partir do velho método do que não se mostra pode ser uma experiência bem mais perturbadora e passível a ser desenvolvida nos próximos anos como a experiência indica. Qualquer pessoa que já experimentou uma história com aquela velha característica impalpável do "suspense dramático" sabe o desconforto que isso traz, como a série de jogos Silent Hill, sobre uma cidade fantasma coberta em neblina em que a ansiedade e terror do protagonista é verdadeiramente transmitida pela antecipação de que algo muito desagradável vai acontecer, mesmo que não se passe absolutamente nada.


Bom, de qualquer das formas, não vou adiantar mais nada acerca do meu ponto de vista, já que pessoalmente eu nem vejo muitos filmes de terror, apesar de inevitavelmente devido à pesada influência da cultura pop e dos mass media não deixar de conhecê-los, e de saber quem é que é o Freddy Krueger, ou o Jason. Assim, não vejo nenhuma legitimidade da minha parte em poder discutir algo do qual nada sei ao contrário de várias pessoas que conheço que padecem dessas manias. (como motejar grandes dissertações sobre o cinema de Eisenstein durante uma aula de história, e nunca sequer ter visto um filme inteiro dele)

No entanto acho que o pior terror que um ser humano pode sofrer são os velhos pesadelos do subconsciente, aquelas viagens familiares profundamente abstractas difíceis de explicar que toda gente já sonhou. Esse fenómeno médico de despersonalização da realidade, sempre alimentadas por um medo crescente de ferver o sangue, de cores ameaçadores, vozes incoerentes, duma certa escuridão viva, do vazio incorporado em formas geométricas impossíveis, é algo tão horrivelmente subjectivo e alucinado que por exemplo seria uma experiência impossível de traduzir para cinema. Mas quem sabe? Talvez daqui alguns séculos no futuro é nisso que geração de pessoas completamente insensibilizadas terão realmente medo num mundo sanitarista e seguro. De si próprias, e mais nada.

10/05/09

Os mecanismos de manipulação do wrestling


Gonçalo Soares (nº545) --> Nos ultimos 5 anos o Wrestling Profissional americano penetrou no mercado português de um modo inacreditável. Embora pareça agora que esta "mania" já está a passar, é interessante ver como tudo começou e cresceu em Portugal até ao ponto de se formarem federações de Luta-livre em vários pontos do país.

Mas a pergunta que aqui se pode colocar é: será que os ditos "heróis do wrestling" (-- citação de um pacote de Bolicao) se enquadram mesmo na definição clássica de heroi?

Jim Hellwig como Ultimate Warrior

No fundo, tudo o que acontece no wrestling não é a fingir, pois quando um corpo humano cai sobre outro corpo humano é óbvio que os dois se vão magoar. O que é realmente a fingir é o estimulo provocado pelas relações entre as personagens, todas elas construídas ora ao longo de vários meses ora de uma semana para a outra. Aquilo a que se chamam "heróis" aqui não são nada mais nada menos que figuras mártires que o público é manipulado a apoiar porque (salvo raras excepções) o público tem tendência a apoiar o lado que está em desvantagem. É certamente um método de criar um herói, mas será digno? 
Obviamente que há sempre outros caminhos, por exemplo, aquele que foi tratado recentemente por Darren Aranofski em The Wrestler, onde o herói é criado através de anos de persistência dentro do seu meio apesar de tudo indicar que não pode continuar. Claro que nunca nem jamais poderá wrestling profissional ser equivalente a este filme. 


Mickey Rourke como Randy "The Ram" Robinson em The Wrestler (de notar a extrema semelhança com Ultimate Warrior na fotografia de cima)

Outro método é também a transformação de vilão em herói, que acontece sobretudo devido ao carisma do "actor" que dá vida à personagem. Este é um processo que pode ser observado noutros meios e cada vez em mais quantidade já há algum tempo.
Em conclusão, a lição que se pode tirar daqui é a de que assim como um organismo vivo ou uma sociedade, também a noção do que é um herói está sujeita a constantes transformações e mutações.

A moda do da crítica/sketch.

Gonçalo Soares (nº 545) > Há cerca de há dois anos para cá iniciou-se uma nova moda "internetesca", maioritariamente possibilitada pelo Youtube, de fazer criticas ao que é mau.

Tudo isto se resume à criação de "video reviews" onde a noção de critica, sketch e "Internet celebrity" se juntam todas. Basicamente o alvo de crítica é sempre um filme, videojogo, etc. que é considerado uma horrivel aberração dentro do seu meio, de seguida este é apresentado pelo "critico" que mostra e explica porque é que o objecto é mau. Para terminar, basta juntar elementos de comédia surreal e referências da "meme" da Internet. Normalmente quando os criadores começam a fazer as suas próprias séries, começam por fazê-las como eles mesmos, mas caso continuem, dão-se ao trabalho de ir criando a sua própria personagem "internetesca".

Esta moda foi iniciada principalmente por James Rolfe, estudante de Belas Artes americano cujo objectivo era entrar para o meio cinematográfico. De facto a sua filmografia consta já de 200 curtas feitas com o seu próprio dinheiro desde que era criança (hoje tem 28 anos). Sem meios profissionais disponiveis passou os anos '90 a fazer a montagem dos seus filmes com o método de dois leitores de VHS, tendo o seu trabalho sido facilitado pela distribuição de software de edição caseira.
A sua vida mudaria quando decidiu inocentemente fazer uns videos intitulados de "Bad NES (Nintendo Entertainment System) Games". Colocou-os no Youtube e pouco depois a sua popularidade aumentaria de modo a que criasse a personagem do "Angry Nintendo Nerd" e depois, devido a direitos de autor da Nintendo, o "Angry Videogame Nerd". Foi contratado pelo site Screw Attack e hoje é pago para insultar jogos maus (ou fazer sketches cómicos, depende do ponto de vista) na Internet.

Aqui está um exemplo:

Este formato de "crítica" tem-se vindo a popularizar ao longo dos anos. Depois do "Angry Videogame Nerd" surgiria o "Nostalgia Critic", um caso semelhante, mas referente a filmes maus. De nome verdadeiro Doug Walker, este criou 3 personagens distintas:

-o "Nostalgia Critic", um "filho" da cultura dos anos '80 que quer vingança pela quantidade de lixo visual a que era exposto enquanto criança;
-o "That Guy With the Glasses", o personagem principal que se limita a ser a faceta principal do movimento
- e "Chester A. Bum", um sem abrigo que faz críticas aos filmes actuais, não necessáriamente porque os quer ver, mas sim porque os cinemas são locais quentes.

Após uma inicial expulsão do Youtube devido a motivos de direitos de autor, Walker criou o seu próprio site thatguywiththeglasses.com que funciona agora como um agregado para este tipo de críticos (todos especializados em àreas diferentes, Comics, Anime, etc.) à medida que surgem novos "talentos" e a sua popularidade aumenta.

Nostalgia Critic

Chester A. Bum


Todos estes são no fundo a herança e fruto do culto iniciado pela série Mistery Theater 3000 e que levam a questionar, com base na sua popularidade, será que a cultura "nerd" conseguiu finalmente a sua "revenge"? Será que chegamos à sociedade em que ser "nerd" se mistura com ser "cool"? Ou até uma pergunta mais importante: quando é que dizer mal das coisas "más" se tornou melhor do que procurar e ver coisas "boas"?

05/05/09

O que é um jogo de computador?

Gonçalo Soares (nº 545) > Uma das interpretações que correm por aí acerca dos video jogos é que este tipo de meio se resume a duas coisas: football, carros, saltos e tiros. No fundo, tal coisa podia ser dita há 20 anos. Felizmente hoje já não. Este meio (tal como qualquer outra forma de "arte") evolui, talvez até mais rápido que muitas outras formas de contar histórias (e não só).
Mas o que se propõe neste post é desmistificar a noção de que o "videojogável" não é o demónio anti-cinematográfico que tenta destruir a noção de experiênciar o espaço e o tempo através da implementação pura de acção estupidificante.

Isto é normalmente como o videojogo é estéreotipado:


Mas o facto é que o videojogo não é só isso. Pode ser, e é também, isto:


Ou isto:


O videojogo não só é um meio já "crescidinho" o suficiente para ser respeitado, assim como é também uma nova maneira de encarar a ficção e dobrar a forma clássica do espectador se identificar com o "heroi" no ecrã (em primeiro lugar porque o espectador/jogador é, salvo em raras ocasiões, o próprio heroi). Além disso vale a pena não esquecer que o videojogo moderno recorre sobretudo ao cinema como fonte de inspiração. O que não significa que recorra apenas ao cinema mau.