
Ana Pires Queiroz; nº 549 - Avaliação
Breaking The Waves de Lars Von Trier não é um centro onde convergem ideias canónicas de beleza. Está à parte do desejo Francês pela mulher cadavérica de poros invisíveis, como das olheiras propagandeadas pela Benetton dos anos 90. Está sobretudo afastado dos grandes preconceitos modernos: o casamento, a feminilidade e a crença em Deus. Para os defensores da racionalidade como elemento fundamental da vida é uma verdadeira afronta, ou mesmo um retrocesso às angústias primitivas. Não se vincula às pressões do quotidiano e mostra-nos um Universo emocional onde o Homem se permite a tudo, já que esse tudo é o pensar e se traduz em silêncio para os outros. Os problemas que a narrativa nos propõe são os problemas de todos- MORTE/AMOR/VIDA. Bess é uma rapariga ingénua que vive uma relação intensa com Deus. Quando limpa a igreja como habitualmente, pede-lhe que Jan volte das plataformas petrolíferas, e Deus diz-lhe pela sua boca, É isso mesmo que tu queres? Com esta frase tudo se transforma: Jan abandona as plataformas depois de um acidente que o paralisa do pescoço para baixo. Vamos assistir então à ameaça da morte, a um debate intenso sobre a manipulação do divino, a manipulação do ser humano e o amor. Imagino a voz de Bess sibilar palavras de Herberto Hélder:
“Beijarei em ti a vida enorme,
E em cada espasmo
Eu morrerei contigo.
(...)”
Sem comentários:
Enviar um comentário