
Fábio Ribeiro; Nº 557. Para avaliação.
O Film Noir foi durante muito tempo o período mais subvalorizado do cinema Americano. Negligenciado pela sua temática violenta e considerado – pela critica e pelos estúdios – de classe B, acabou por vir a ser um dos mais preponderantes movimentos do Cinema Americano. Influenciado na sua génese por tendências tão variadas quanto o Expressionismo Alemão e realismo poético Francês, surgiu das ficções policiais “hard-boiled” de autores como Raymond Chandler ”The Falcon Takes Over”, David Goodis ”Dark Passage“ e James N. Cain “The Postman Always Rings Twice”, também autor do filme que escolhi como arquétipo desta corrente - “Double Indemnity”.
Walter Neff (Fred MacMurray), um ingénuo homem de seguros, é seduzido pelos encantos da sua cliente Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) e juntos planeiam a morte “acidental” do desinteressante marido dela. Um crime de paixão com o bónus adicionado de receberem a “double indemnity” do seu seguro de vida. Este filme que tipifica o Noir, foi realizado por Billy Wilder em 1944, tendo sido nomeado no ano seguinte para sete Oscars da Academia, incluído o de melhor filme e melhor realizador. Hoje é considerado um dos expoentes máximos do género sobre o qual escrevo.
O Noir tem como temas recorrentes o passado sombrio e o pesadelo fatalista, ambos derivativos da psicologia Freudiana e do existencialismo que na altura ganhavam protagonismo. Os personagens dos filmes negros estão usualmente a tentar escapar a um peso ou incidente do passado, crimes que cometeram por paixão ou mesmo dos seus próprios demónios. No entanto aqui ninguém escapa ao seu passado, ele assume um protagonismo real e tangível, abraça o presente de modo a ajustar contas com os nossos personagens que sentem a justiça cada vez mais próxima. Existe sempre uma esperança de algum tipo de redenção, mesmo que esteja na ponta de uma arma.
A narrativa dos filmes negros gira em torno da causalidade, os eventos estão sempre ligados e levam inevitavelmente a uma pressagiada conclusão.
Podemos englobar as nossas personagens Noir “arquetipais” em três categorias: O que procura a verdade, o perseguido e a femme fatale. Os três coexistiam numa realidade urbana de iluminação ao estilo de Caravaggio “Chiaroscuro”, onde os ângulos quase expressionistas, a câmara em movimento, o plano subjectivo e os flashbacks, complementavam esta nova dialéctica fílmica.
Estamos perante um herói condenado, criado e sentenciado, pela própria “vida”. Nada pode fazer para escapar às suas motivações, aos seus crimes e ao seu julgamento final. Escolhi este género e este filme por gostar muito de ambos, mas também pela massiva influência que tiveram nos cineastas e personagens das gerações seguintes. O chamado Neo-Noir onde se podem incluir “clássicos” como o “Chinatown” de Roman Polanski, “The Conversation” de Francis Ford Coppola, “Táxi Driver” de Scorsese, “Body Heat” de Lawrence Kasdan entre outros, assinalam a primeira geração a reconhecer nos seus filmes a influência que tanto os marcou. Ainda hoje isso se verifica, Tarantino, Fincher, Bryan Singer, Stephen Fears fazem parte desta legião que encontrou no Noir a força visual e narrativa que anos antes, Fritz Lang, Otto Preminger, Robert Siodmak, Billy Wilder entre outros gigantes das histórias psicologicamente perversas e muitas vezes fatalistas, trouxeram para o grande ecrã. O anti-herói é hoje em dia e mais do que nunca o expoente de uma sociedade desencantada, reflexo de uma ausência existencial e de um desinteresse global no futuro colectivo. Cada vez mais nos sentimos “voluntariamente” presos nesta realidade individualista. Procuramos soluções fáceis e vivemos assombrados com o que fazemos por estes objectivos induzidos. O conceito do anti-herói Noir volta a fazer “sentido”, volta a ser actual e adquire uma nova dimensão ligada ao contemporâneo. Resta ver como se vai manifestar nas futuras gerações de cineastas. Só o tempo e os filmes o dirão.
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