26/06/09

Luís Marques da Cruz, nº 559 - para avaliação



É com esta imagem que acaba o filme SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOIRA, de Manoel de Oliveira. Esta é uma curta apreciação ao filme, adaptação livre do conto homónimo de Eça de Queiroz. Trata-se de uma pequenina pérola com menos de um hora, e que me deu imenso prazer a ver. É, desde logo, um filme muitíssimo imperfeito - no melhor sentido desta palavra. O Ricardo Trêpa faz de Ricardo Trêpa a fazer de contabilista frustrado no amor, A Leonor Silveira faz de Leonor Silveira a fazer de ouvinte interessada nas frustrações de Ricardo Trêpa, Rogério Samora faz de Rogério Samora a fazer de marchant de arte a fazer-se de amigo de Ricardo Trêpa, Catarina Wallenstein faz de rapariga loura por quem Ricardo Trêpa se apaixona e Luís Miguel Cintra faz de Luís Miguel Cintra (vá lá!). Manoel de Oliveira, por sua vez, faz-se de ingénuo - e esta é a melhor interpretação no filme.
É que, como se sabe, Manoel de Oliveira nunca é ingénuo. Mesmo uma abordagem a um conto de Eça de Queiroz fica longe de contentar-se com a exposição do enredo criado pelo escritor.
Uma cena, paricularmente, denuncia as intenções do Mestre: há um Sarau musical em casa de uma família de classe alta (um "sarau musical"? E o filme passa-se hoje em dia? Pois. Adiante se voltará ao tema). O plano é fixo, e dura cerca de 9 ou 10 minutos. Ao início, uma jovem rapariga toca harpa. Interrompe-se quando a peça chega ao fim. Ouve-se o som de palmas daquilo que parece ser meia-dúzia de pessoa (vê-se, a um lado do plano, um casal que igualmente aplaude). A rapariga sai, entra em cena um homem que anuncia o próximo "número": "E agora, uma salva de palmas para Luís Miguel Cintra." Luís Miguel Cintra entra em plano, e recita alguns poemas de Alberto Caeiro. O plano prolonga-se até ao limite do possível, depois prolonga-se um pouco mais e, , interrompe-se.
Trata-se de uma cena, a todos os níveis, desconcertante. Desde a duração do plano à escolha de Luís miguel Cintra para se interpretar a si próprio, no seio de uma cena "de época" inserida num filme passado nos dias de hoje, nada, aqui, está no sítio certo. E, ainda assim, como avaliá-la? Ela parece escapar-se a todas as considerações de natureza formal, ao mesmo tempo que, sem fugir à narrativa, a leva para um caminho absolutamente inusitado. Seria apenas um pormenor, caso estivéssemos em face de uma exposição linear da narrativa; com Oliveira, torna-se o centro do filme. É fácil de entender o efeito que isto produz: imaginem que um marido conta à sua mulher como foi o seu dia no trabalho e, a meio de uma exposição normal das vicissitudes do seu dia, detém-se, de súbito, e durante dez minutos, a descrever o modo como um balão ficou preso numa linha telefónica visível da sua janela, apenas para retomar depois o relato que vinha fazendo e a levá-lo normalmente até ao fim.
É sensivelmente isto que Oliveira leva a cabo, mas com uma diferença: este pormenor em que o cineasta se detém é, em si, se não belo (conceito que remete para a subjectividade de cada um de nós), então, ao menos, inteiramente ao gosto de Oliveira - no sentido mais corriqueiro destas palavras! Isto é, Oliveira gosta de ouvir Luís Miguel Cintra a dizer poesia, e resolveu filmá-lo a fazê-lo. Que interessa a ausência de significado, para a narrativa, deste gesto?! "Nada", parece dizer-nos Oliveira do alto dos seus 100 anos (1200 meses, 5600 semanas).
A única intenção do Mestre, parece-me - e, se a desvendei, sou dos primeiros - é o prazer. E é por isso que SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOIRA, onde este princípio hedonista é levado às suas últimas consequências, é tão agradavelmente sincero e simples. Trata-se de uma simplicidade, por sua vez, difícil de atingir, e rara: fazer-se aquilo de que se gosta (o que equivale, em Oliveira, a filmar aquilo que se gosta) é das atitudes simultaneamente mais simples, mais preciosas e mais difíceis de encontrar.





Aliás, não se pode duvidar de que Manoel de Oliveira vive e filma de acordo com o princípio do prazer: de outra forma, como é que ele continuaria interessado e feliz no acto de fazer filmes?
"É preciso cuidado ao mexer na literatura desses mestres e levá-la ao cinema", disse uma vez Oliveira. E, de maneira contundente, este princípio é levado à letra em SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOIRA, sendo que o cuidado, aqui, está na moderação (prática indispensável ao hedonismo, como deverão saber); moderação que pondera, por um lado, a narratividade e, do outro, a efabulação livre, despojada de "causas" ou de "consequências". Poderíamos falar, talvez, de Apolo e Dionísio em plena harmonia, da ordem e dos instintos a praticarem uma delicada dança. É por isso, creio, que este filme nos atinge no estômago: desde há muitas décadas já que a Arte se dividiu entre estes dois caminhos, e em parte se perdeu num ou noutro polo dessa dialética.
Será esse o segredo deste filme? Actores que não representam, pistas que não são inteiramente desenvolvidas, incursões líricas que se interrompem para dar lugar à exposição de elementos do enredo, os quais, por sua vez, cedem lugar a momentos de explosão dramática? SINGULARIDADES não escolhe caminhos; fica, exactamente, ao meio. E começo a perguntar-me se não á precisamente a meio das coisas que se deve estar.
O plano que termina o filme é uma inacreditável junção de tudo isto. Nele, Catarina Wallenstein, abandonada por Trêpa, entrega-se ao desalento num sofá da sua sala. Por um lado, esta é a consequência lógica da narrativa, admite-se. Por outro, os gestos dela não são os de uma pessoa, mas o de um brinquedo ao qual acabou a corda. Catarina "desliga-se", e mantém-se assim até ao final do filme. O que teria conduzido a esta solução, se não uma consciência (agudíssima, e nada ingénua) do gozo que dá transformar a femme fatale numa praticante (para mais, amadora) de Dança Moderna?

Sem comentários: