15/06/09

Mais Um Comentário Deveras Superficial A Um Filme Qualquer (Texto Para Ser Avaliado)


Luis Zhang (Nº 537) -->> Vou aqui fazer um comentário livre sobre um dos meus filmes não necessariamente preferidos, mas que ficou parcialmente registado no meu subconsciente volátil, mais precisamente num anime japonês, na obra famosa de Isao Takahata, Grave of Fireflies, produzida em 1988. Infelizmente a maior parte da população tem um estigma contra desenhos animados devido ao monopólio politicamente correcto que a Disney impôs, e nos últimos anos os estúdios da Pixar, mas Grave of Fireflies não tem absolutamente nada a ver com o reino da fantasia e de animais falantes, sendo uma história semi-biográfica apoiada na mais duras das tradições neo-realistas, que influenciou fortemente todo o cinema convencional depois dos anos 50, principalmente a cinematografia portuguesa para bem ou mal dos seus pecados. 


Trata-se dum filme animado adaptado dum romance de Akiyuki Nosaka, um sobrevivente aos bombardeamentos dos Aliados à sua cidade, que escreveu o livro como um pedido de desculpas à sua irmã, que não conseguiu salvar de sub-nutrição durante os meses após a guerra. 


O argumento do filme adaptado por Takahata, é sobre duas crianças, o irmão adolescente mais velho Seita e a sua irmã de seis anos Setsuko que depois de verem a sua cidade completamente ardida em cinzas pelas bombas de napalm dos americanos, e de se tornarem órfãos, vão morar com uma tia que os despreza. Finalmente o irmão mais velho decide fugir de casa, levando a irmã, tentando sobreviver no cenário do pós guerra rural durante o resto da história, que avança através de pequenos episódios. Logo no primeiro plano do filme vemos Seita a esmorecer-se no metro arruinado de Tokyo, ao lado dos corpos de vadios deitados no pavimento enquanto é completamente ignorado pelos transeuntes, sendo a sensação de indiferença da população pelos órfãos da guerra tão corrosiva que só num filme de Rossellini a realidade é mostrada dum modo tão cru. Cansado de viver Seita finalmente expira e vê o que parece ser a sua irmã num campo de pirilampos, e é nesse momento idílico que tem os flashbacks para meses antes daquele momento.  


A maneira como a vida destas duas crianças é retratada é absolutamente chocante, sem sentimentalismos manipuladores desnecessários, com um ritmo espaçado e uma noção de tempo documental, naqueles momentos de silêncio taoísta, em que se cria a atmosfera e o público pode reflectir nas diversas situações que são mostradas. O mais interessante é a existência de planos estilísticos da natureza e doutros pormenores que servem unicamente como pausas poéticas, e transições entre dois planos narrativos, tornando o modo de contar a história uma experiência contemplativa e pouco melodramática.


Outra característica que Takahata herdou do neo-realismo é o facto de descrever episódios inteiros mundanos da vida quotidiana dos dois irmãos, como a preparação de comida, limpeza pessoal e brincadeiras que não têm um propósito consequente em termos de avançar o plot, nem de desenvolvimento de personagens, mas simplesmente servem como exemplos documentais duma infância perdida.


Existem alguns simbolismos que são ligeiramente difíceis de compreender para um público ocidental, como o facto do título original em caracteres “túmulo para uma gota de fogo”, ter como significado metafórico a efemeridade da vida, uma ideia transmitida no diálogo entre as duas crianças quando vão à noite apanhar pirilampos.


Ou por exemplo o facto de tal como nas peças trágicas de ópera japonesas, os personagens vão perdendo a vontade de viver depois de caírem em desgraça pelo seus próprios erros, acabando em duplos suicídios, as personagens do filme estão condenadas, onde até a gruta num monte onde se refugiam é similar aos túmulos japoneses tradicionais, e por causa da ignorância e teimosia de Seita sempre querendo subsistir sem a ajuda dos outros, é que leva em parte a irmã à morte, sofrendo depois dum arrependimento e culpa tão considerável que lhe rouba no final a fúria de sobreviver. Isto faz lembrar bastante o final do Germania Anno Zero, em que Edmund Koeler simboliza tal como Saita as próprias pessoas que levaram à queda da sua nação. Da folia humana que é o orgulho, sendo a mensagem deste filme vista por alguns como um manifesto humanista anti-guerra, mas que nas palavras de Takahata é simplesmente um hino à mono a aware, uma expressão idiomática sem tradução que significa simplesmente “o sentimento doce-amargo de pena pela transitoriedade da vida”. 

Hmm... Ai está uma boa emoção.




Ironicamente a recepção deste filme foi um terrível fracasso comercial na época, visto tratar dum tema que não agradava a crianças nem a pais, dada a sua natureza altamente deprimente, tal como os filmes do neo-realismo italiano eram pouco apreciados na sua terra natal. Como uma última nota pessoal, agora que penso nisso, eu nunca acabei de ver o filme até ao fim quando era puto, porque era tudo um bocado lúgubre, soturno e quiçá tétrico para o meu gosto, mas é engraçado como os filmes que nunca vimos ou que nunca os concluímos é que ficam na memória, num certo ideal platónico estranho difícil de escrever.