
Tood Haynes diz que pensou em 'Jeanne Dielman, 23 Quai du Comerce, 1080 Bruxelles' (Chantal Ackerman, 1975) enquanto preparava 'Safe'. É estimulante rever o filme de Haynes à luz da (para muitos, e para mim também) obra-prima de Ackerman. Se formalmente, ambos os filmes assentam em rígidos enquadramentos que 'aprisionam' as suas protagonistas num mundo asséptico e desconfortável, é também inevitável fazer pontes entre as notáveis interpretações 'underacting' tanto de Delphine Seyrig como de Julianne Moore. No meio de tudo está um problema de comunicação, face a um mundo que opera transformações hostis.
'Safe' é a história de Carol White (Julianne Moore), uma arquetipal dona-de-casa numa família de classe média-alta constituída pelo seu marido Greg (Xander Berkeley) e pelo filho dele, fruto de um anterior casamento. O espaço e o tempo são apresentados logo no genérico (ainda que se tornem não tão imediatos no decorrer da película): vemos que nos encontramos num bairro residencial californiano, (daqueles a que objectos recentes de vasta difusão como 'American Beauty' ou 'Desperate Housewifes' tornaram imediatamente reconhecíveis para todo o mundo) através do ponto de vista de dentro de um automóvel em movimento (e agora poderíamos dizer que é um 'plano à Chantal Ackerman'... mas não abdicamos da segurança dos parentisis...); quanto ao tempo, uma legenda localiza-nos em 1987 - estamos perante um filme de época.
Quando o filme começa é-nos apresentada a rotina diária de Carol - a protagonista e verdadeira 'heroína' da história - enquanto dona-da-casa (justamente como em 'Jeanne Dielman...'). Tudo normal, excepto que vamos já reconhecendo alguma 'estranheza' que não conseguimos qualificar... há algo nas reacções de Carol que instala em nós o receio - e Julianne Moore é brilhante no modo sub-cutâneo que encontrou para nos transmitir isso.
Na sua 'pálida' presença, torna-se notório que há uma (progressiva) dissociação com o mundo, seja na sua exagerada reacção confrontando-se com um sofá da cor errada, ou no modo ausente como faz amor com o marido, ou no tom inseguro com que se dirige às pessoas, nomeadamente à sua empregada doméstica. Há, portanto, um elemento de instabilidade - e isso é um dispositivo que Haynes inteligentemente esculpiu para que mais à frente na narrativa, tanto as personagens que a rodeiam (dentro da diegese) como nós, os espectadores (fora da diegese) duvidem da real existência de uma doença, e apostem num provável desequilíbrio mental. Por outras palavras, é um instrumento de manipulação do realizador (ainda que legítimo, dizemos nós). Como se ele fosse um deus a criar obstáculos ao 'herói', Carol, fazendo-a duvidar da sua própria circunstância. O resultado disso é que crescentemente as coordenadas espacio-temporais vão sendo propositadamente baralhadas para o espectador.
A certa altura, começa a materialização dessa tal 'coisa que vai mal mas não se consegue explicar': conduzindo o seu automóvel atrás de um camião que lança uma grande quantidade de fumo pelo tubo de escape, Carol tem um violentíssimo ataque de tosse. Com o decorrer do tempo, seguem-se vómitos, hemorragias, tonturas, desmaios. Os exames médicos não revelam nada de anormal. No entanto, ela deixa definitivamente de conseguir ter uma vida normal, e vai-se lentamente desligando de tudo no seu mundo: deixa de conseguir aproximar-se do marido, evita as amigas. Através de alguma informação médica 'paralela', ela encontra um diagnóstico que lhe assenta em todos os sintomas, que é uma doença que se caracteriza pela baixa (baixíssima) tolerância do sistema imunitário a todas as toxinas, fumos, químicos, aerossóis, etc, que a vida moderna 'oferece'.THE TWENTIETH CENTURY DISEASE, ou a alergia ao século XX - no filme, convenientemente apelidada de 'alergia ambiental'.
Num crescendo de paranóia (por isto, e pelo trabalho de progressiva degradação sobre o corpo, lembramo-nos de 'Bug', o injustamente esquecido filme de 2006 de William Friedkin, e protagonizado pelo agora em voga Michael Shannon), Carol afasta-se de tudo o que possa ser ameaça, como maquilhagem, cremes, alimentos enlatados, e a lista continua como será fácil adivinhar. Entretanto ouve falar de Wrenwood, uma quinta de retiro de clara inspiração New Age (e não esqueçamos que estamos nos anos 80), onde uma comunidade formada por pessoas que padecem do mesmo mal se querem tratar, através das palavras e métodos do líder Peter Dunning (Peter Friedman). E é lá que ela tenta recuperar, ganhando de facto uma esperança que parecia perdida. Mas numa cerrada crítica a este tipo de grupos (dos de auto-ajuda aos dos '12 passos'), o que de facto acontece é que Carol vai perdendo a sua identidade a favor de uma certa 'identidade de grupo'. Se a crítica a este tipo de comunidade New Age não fosse clara o suficiente apenas pela simples demonstração nas cenas em que vemos o tipo de actividades que praticam, liderados sempre pelas palavras 'demagógicas' de Peter, ela fica impressa sem alguma dúvida na cena em que se percebe que Peter vive numa opulenta mansão no topo da colina (símbolo mais claro que este só num livro infantil!).
A cena final do filme é o momento mais forte que Haynes já filmou: Carol, no cúmulo da sua fragilidade, tenta pôr em prática a busca do amor próprio que as terapias de grupo e as palavras fáceis de Peter apregoam. Assim, timidamente em frente ao espelho, timidamente em frente a si própria, ela balbucia qualquer coisa. Uma vez, depois outra, mas não é claro o que tenta dizer. Até que depois a pronuncia claramente: "I love you". E nós? Atónitos, claro. Até porque, na extrema ambiguidade com que o realizador enquadrou isto, Carol, a olhar-se ao espelho é Julianne Moore a olhar directamente para a lente. É também um bocadinho nosso, este "I love you", nosso como do mundo que o corpo dela rejeita, mas a que ela percebeu que tem que amar, já que a meio da vida, ainda não viveu nada. "I love you. I really do.", e o filme acaba, e nunca um filme acabou com estas palavras e soou ainda assim tão pessimista.
Se o sabor deste filme se filia claramente na tradição dos 'telefilmes médicos', em que a protagonista padece de uma condição que ninguém compreende (encontrei algures a fabulosa designação de "disease of the week genre"!), o realizador admitiu também ter-se lembrado de 'The Boy in the Plastic Bubble' (Randal Kleiser, 1976), filme em que a personagem interpretada por John Travolta sofria de uma doença do sistema imunitário que o obrigava a viver dentro de uma bolha, que o protegia do mundo. Ora, realmente, em muitos momentos durante 'Safe' parece que alguém retirou essa bolha a Carol White, e estamos a assistir às consequências.
Refira-se que o magnífico desempenho de Julianne Moore é o aspecto do filme que mais 'salta à vista'. Esqueçam 'tretas' como 'O Maquinista' e afins. Se tal como Christian Bale (que ninguém põe em causa que é um bom actor) nesse filme, Julianne Moore teve que emagrecer e investir muito, digamos, fisicamente, na verdade isso é um elemento que apenas torna mais verosímil e visual o processo pelo qual ela faz passar a sua personagem, que é quase todo feito através de pequenas e subtis pistas. Num efeito que diria quase de filme de terror, Moore passa do registo de 'pessoa que nunca viveu a vida' para um crescendo em que a ausência e o isolamento interior são as notas-chave, e onde a decadência e degradação física são a horrível constatação exterior dessa condição. É notável em todos os aspectos este desempenho, e não há muito mais que se possa pedir a um actor.
O tom claustrofóbico que se faz sentir durante o filme é fruto não só da performance da actriz, mas também do trabalho de fotografia de Alex Nepomniaschy, e da sonoplastia de Ed Tomney. Ao que parece, logo na primeira reunião entre o realizador e o director de fotografia, falou-se do 'Il Deserto Rosso' (Michelangelo Antonioni, 1964). Percebe-se porquê, tendo em atenção o minimalismo rígido da fotografia, e a sua 'elegante' composição. Mas parece-nos que o 'ambiente controlado' e asséptico, simétrico, o uso de cores frias, a preponderância de planos abertos mesmo em alguns casos usando teleobjectivas (na alternância de escalas, fica-se com a sensação que mesmo os planos fechados do filme são mais abertos do que o 'normal'...) nos aproximam bastante do cinema de Kubrick.
E depois, parece sempre que as vozes das personagens estão algo 'escondidas' debaixo de uma camada de som, de 'lixo sonoro', que traduz o modo agreste e desconfortável em que Carol se movimenta no mundo. Há sempre essa camada de som extra, assim como há sempre uma reverberação ou um eco nas vozes, e assim a claustrofobia se torna um pesadelo multi-sensorial neste filme.
A opção de situar a história nos anos 80 dá-nos uma pista que nos faz supor que ao falar desta 'infecção ao século XX', Todd Haynes está também a falar no flagelo da SIDA, e na discriminação que a comunidade gay conheceu na altura; outra leitura poderá ser a ecológica, no sentido mais 'Al Gore' do termo, em que Carol White seria a personificação do seu powerpoint. Numa interessante entrevista concedida a Larry Gross, Haynes acaba por conceder que há realmente um tom de crítica política em 'Safe', mas no sentido em que questiona as tradicionais 'causas de esquerda'. Caso curioso, visto que Haynes é ele próprio gay.
Um grande filme que colocou Todd Haynes no mapa, mas estabeleceu um paradigma tão alto que o realizador nunca mais lá conseguiu chegar. Há edição portuguesa em DVD, tendo sido avistada uma no hipermercado Jumbo, custando a simbólica quantia de 2-dois-2 euros.