Mariana Castro (nº552) - Há momentos em que uma exposição de arte interage de tal forma com o nosso espaço que somos levados para uma experiência única. Sucedeu um concerto que pelo meu apreço à música do autor teria de ver, mas onde não esperava nada além do que a beleza da sua música provocava já até aí.
Falo de um concerto por não se tratar meramente de um concerto e acreditar que nele existe um nível experimental que conjuga muito mais artes do que a música.
William Basinski elabora os seus concertos como se de uma experiência se tratasse. Não diria uma experiência científica, mas sim uma experiência psicológica, uma vez que nela existem sempre variantes, internas ao autor, internas a cada espectador que colocam a vivência daquele momento num nível cerebral.
É de facto uma experiência cerebral que ali se vive, submersos na sala escura, como num Cinema.
Em frente da tela uma performance de um ser que parece executar uma ciência muito própria, sobre uma simples mesa. Liga a máquina e nas suas mãos vão-se separando pequenos fios brilhantes de espessura idêntica, ele dispõem-os na mesa e sobre a máquina coloca apenas um desses fios, uma simples fita de tape sonora é colocada para leitura. Em loop, o sample materializado roda sobre o leitor de fita magnética e o som parece inundar a sala. A fita vai rodando enquanto Basinski vai criando leves variações em efeitos sonoros sobre o sample. Os sons não são meras melodias mas repetições melódicas onde as variações, de tão suaves e contínuas provocam o despontar de um universo maior.
Atrás desta mesa uma tela em branco é preenchida. Uma imagem que facilmente assimilamos pertencer ao mundo, como se fosse uma imagem que tivessemos visto já vezes sem conta, sem por ela darmos, sem nela residir qualquer valor predefinido. Por vezes uma nuvem num céu que não sabemos se pertence à noite ou ao dia, outras ramos de árvores erguidos para o céu, as imagens são a única luz que preenche a sala como propondo-nos uma experiência eminentemente visual. Mas essas imagens não se fixam, como os loops na música que pela variação ou pela repetição geram algo de novo, jamais fixável. São imagens de vídeo desaceleradas a ponto de não identificarmos exactamente qual é o seu movimento, a ponto de não conseguirmos prever qual é a direcção de cada traço.
A fita magnética sobre o leitor vai rodando, e como que dotada de uma vida, vai-se deteriorando, como se tivesse um tempo próprio para correr sobre o leitor, independente do desejo do autor, dotada da fragilidade de um ser orgânico, impossível de se repetir como no digital que se perpetua. Basinski retira-a do leitor e deposita-a num frasco de vidro. Coloca uma nova fita, um novo sample, sem que por ele demos vai inundando também ele sala, como o anterior, e também ele acabará morto num frasco para dar vida ao próximo.
A sua música é muito mais do que música mas, por si só, uma experiência que invade os sentidos e os deixa perplexos sem a compreensão imediata do que acontece.
Na tela a imagem segue a sua vida, também ela dotada de uma vida própria que advém dos momentos em que cada traço nela se conjuga com cada traço sonoro.
A lentidão transforma a imagem – uma única imagem percorre o concerto todo, também ela em loop – deforma-a no modo como a recebemos.
Esta opção de Basinski faz-me recordar um filme experimental muito interessante:
Chieko Shiomi - Disappearing Music for Face (1966)
Falo de um concerto por não se tratar meramente de um concerto e acreditar que nele existe um nível experimental que conjuga muito mais artes do que a música.
William Basinski elabora os seus concertos como se de uma experiência se tratasse. Não diria uma experiência científica, mas sim uma experiência psicológica, uma vez que nela existem sempre variantes, internas ao autor, internas a cada espectador que colocam a vivência daquele momento num nível cerebral.
É de facto uma experiência cerebral que ali se vive, submersos na sala escura, como num Cinema.
Em frente da tela uma performance de um ser que parece executar uma ciência muito própria, sobre uma simples mesa. Liga a máquina e nas suas mãos vão-se separando pequenos fios brilhantes de espessura idêntica, ele dispõem-os na mesa e sobre a máquina coloca apenas um desses fios, uma simples fita de tape sonora é colocada para leitura. Em loop, o sample materializado roda sobre o leitor de fita magnética e o som parece inundar a sala. A fita vai rodando enquanto Basinski vai criando leves variações em efeitos sonoros sobre o sample. Os sons não são meras melodias mas repetições melódicas onde as variações, de tão suaves e contínuas provocam o despontar de um universo maior.
Atrás desta mesa uma tela em branco é preenchida. Uma imagem que facilmente assimilamos pertencer ao mundo, como se fosse uma imagem que tivessemos visto já vezes sem conta, sem por ela darmos, sem nela residir qualquer valor predefinido. Por vezes uma nuvem num céu que não sabemos se pertence à noite ou ao dia, outras ramos de árvores erguidos para o céu, as imagens são a única luz que preenche a sala como propondo-nos uma experiência eminentemente visual. Mas essas imagens não se fixam, como os loops na música que pela variação ou pela repetição geram algo de novo, jamais fixável. São imagens de vídeo desaceleradas a ponto de não identificarmos exactamente qual é o seu movimento, a ponto de não conseguirmos prever qual é a direcção de cada traço.
A fita magnética sobre o leitor vai rodando, e como que dotada de uma vida, vai-se deteriorando, como se tivesse um tempo próprio para correr sobre o leitor, independente do desejo do autor, dotada da fragilidade de um ser orgânico, impossível de se repetir como no digital que se perpetua. Basinski retira-a do leitor e deposita-a num frasco de vidro. Coloca uma nova fita, um novo sample, sem que por ele demos vai inundando também ele sala, como o anterior, e também ele acabará morto num frasco para dar vida ao próximo.
A sua música é muito mais do que música mas, por si só, uma experiência que invade os sentidos e os deixa perplexos sem a compreensão imediata do que acontece.
Na tela a imagem segue a sua vida, também ela dotada de uma vida própria que advém dos momentos em que cada traço nela se conjuga com cada traço sonoro.
A lentidão transforma a imagem – uma única imagem percorre o concerto todo, também ela em loop – deforma-a no modo como a recebemos.
Esta opção de Basinski faz-me recordar um filme experimental muito interessante:
Chieko Shiomi - Disappearing Music for Face (1966)
Nele um sorriso que se desfaz tão lentamente que só damos pela transformação dos lábios quando nos confrontamos com a nossa concepção racional sobre o que percepcionámos dois segundos antes.
Na experiência de um concerto de William Basinski acontece-nos o mesmo mas numa escala muito maior. A experiência não é apenas sonora, nem apenas visual, mas uma espécie de arte conjugada, uma performance ou um cinema cerebral, onde os sentidos são invadidos pela vibração das ondas de som no espaço, pela distância à “mesa de experiências”, pela luz da imagem, pelo movimento das linhas, pelo músico que metodicamente, como um autómato, durante 60 minutos sem pausa, coloca as minúsculas fitas magnéticas no leitor para lhes dar e roubar a vida.
Só depois de estar num concerto se compreende completamente aquilo que o autor tem como desejo com os seus conceitos sonoros – criar experiências cerebrais que levam quem as ouve e vê a atingir certos estádios de pensamento. Até aí os seus discos faziam apenas sentido na pouca luz, onde fossemos invadidos pelo som e a pouca luz que nos entrasse pelos olhos fosse uma micro percepção no espaço que criasse uma experiência.
Mas então surge a experiência do concerto que não é um concerto, mas antes uma sala escura onde, voluntariamente, pessoas pagam para se submeter à experiência e nela fica de tal forma submerso que se dá uma coisa extraordinária: não se consegue, durante dos 60 minutos, manter um estado de consciência, mas da mesma forma não se consegue ir para o inconsciênte – quando por vezes se pensa estar a ser embalado pela melodia a ponto dos olhos fecharem e a imagem que na tela se movia desaparecer, não se atinge nunca o sono, nem nele se toca sequer, fica-se num estado entre a consciência do que se passa à nossa frente e o inconsciente, onde sentimos e percepcionamos aquele mundo ao mesmo tempo e por fim não se consegue materializar esta experiência em palavras que não contém nenhuma percentagem do universo que ali é provocado. Damos apenas conta que, ao falarmos com outro espectador ele se depara com a mesma noção do que ali aconteceu. E no entanto nada desse universo pode ser verdadeiramente verificado porque cada concerto de William Basinski é uma melodia diferente (e uma única música durante o tempo todo) o que torna cada concerto uma experiência única.
Na experiência de um concerto de William Basinski acontece-nos o mesmo mas numa escala muito maior. A experiência não é apenas sonora, nem apenas visual, mas uma espécie de arte conjugada, uma performance ou um cinema cerebral, onde os sentidos são invadidos pela vibração das ondas de som no espaço, pela distância à “mesa de experiências”, pela luz da imagem, pelo movimento das linhas, pelo músico que metodicamente, como um autómato, durante 60 minutos sem pausa, coloca as minúsculas fitas magnéticas no leitor para lhes dar e roubar a vida.
Só depois de estar num concerto se compreende completamente aquilo que o autor tem como desejo com os seus conceitos sonoros – criar experiências cerebrais que levam quem as ouve e vê a atingir certos estádios de pensamento. Até aí os seus discos faziam apenas sentido na pouca luz, onde fossemos invadidos pelo som e a pouca luz que nos entrasse pelos olhos fosse uma micro percepção no espaço que criasse uma experiência.
Mas então surge a experiência do concerto que não é um concerto, mas antes uma sala escura onde, voluntariamente, pessoas pagam para se submeter à experiência e nela fica de tal forma submerso que se dá uma coisa extraordinária: não se consegue, durante dos 60 minutos, manter um estado de consciência, mas da mesma forma não se consegue ir para o inconsciênte – quando por vezes se pensa estar a ser embalado pela melodia a ponto dos olhos fecharem e a imagem que na tela se movia desaparecer, não se atinge nunca o sono, nem nele se toca sequer, fica-se num estado entre a consciência do que se passa à nossa frente e o inconsciente, onde sentimos e percepcionamos aquele mundo ao mesmo tempo e por fim não se consegue materializar esta experiência em palavras que não contém nenhuma percentagem do universo que ali é provocado. Damos apenas conta que, ao falarmos com outro espectador ele se depara com a mesma noção do que ali aconteceu. E no entanto nada desse universo pode ser verdadeiramente verificado porque cada concerto de William Basinski é uma melodia diferente (e uma única música durante o tempo todo) o que torna cada concerto uma experiência única.
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